Brasil registra menor índice de homicídios da série histórica, mas violência persiste de forma desigual

O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, com taxa de 20,1 casos por 100 mil habitantes, uma redução de 7,4% em relação a 2023 e o menor patamar desde o início da série histórica, em 2014. Os dados são do Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com base nos sistemas de informação do Ministério da Saúde. 

Apesar da queda nos índices oficiais, o estudo alerta para um aumento crítico na subnotificação dos homicídios, o que significa que os números reais podem ser ainda mais graves do que os registros apontam.

Desigualdade territorial

As menores taxas de homicídio foram registradas em São Paulo, Santa Catarina e Distrito Federal, enquanto Amapá, Bahia, Pernambuco e Ceará concentraram os maiores índices. 

Entre municípios com mais de 100 mil habitantes, 17 das 20 cidades mais violentas estão no Nordeste, e as 20 menos violentas estão nas regiões Sul e Sudeste.

Segundo o Atlas, o Norte e o Nordeste enfrentam processos mais intensos de expansão de facções criminosas, conflitos territoriais e fragilidade na infraestrutura de segurança pública, além de uma transição demográfica mais lenta, que mantém maior proporção de jovens na população. 

Sul e Sudeste, por sua vez, apresentam envelhecimento populacional mais acelerado, urbanização consolidada e estruturas institucionais mais robustas.

301 mil jovens assassinados em 11 anos

Entre 2014 e 2024, 301.825 jovens de 15 a 29 anos foram assassinados, cerca de 75 por dia. Só em 2024, foram 19.801 jovens mortos, com taxa de 42,2 homicídios por 100 mil habitantes. Desse total, 18.545 eram homens, com taxa de 78,0 por 100 mil, quase o dobro da média geral. 

Dos 54 jovens mortos diariamente no ano, 51 eram do sexo masculino. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, armas de fogo foram utilizadas em 84,1% dos homicídios.

O estudo também revela um ciclo crescente de violências não letais contra crianças. As notificações de violência sexual na primeira infância (0 a 4 anos) cresceram mais de quatro vezes em uma década, saltando de 1.671 casos em 2014 para 7.845 em 2024. 

De 5 a 14 anos, o aumento foi de 6.594 para 29.135 registros. Cerca de dois terços das vitimizações de crianças de até 14 anos ocorrem dentro da própria residência, para menores de 0 a 4 anos, esse índice chega a 79,9%.

Violência contra mulheres, negros, LGBTQIAPN+, indígenas e idosos

Os homicídios de mulheres recuaram 27,7% entre 2014 e 2024, atingindo o menor índice da série histórica. No entanto, essa queda foi impulsionada pela redução das mortes fora do ambiente doméstico. A taxa de mulheres assassinadas dentro de casa permaneceu praticamente estável, de 1,25 para 1,18 por 100 mil, o que indica que os feminicídios não diminuíram. 

Mulheres negras são as mais afetadas, com taxa de vitimização letal 66,7% superior à das não negras. Além disso, 66,2% das mulheres atendidas pela rede de saúde relataram múltiplos episódios de violência no mesmo ano.

A violência letal contra pessoas negras também permanece em patamar alarmante: 32.820 negros foram assassinados em 2024, média de 89,9 por dia. 

A taxa de homicídios entre negros é 170,3% superior à de não negros, um cidadão negro tem 2,7 vezes mais chances de ser morto, risco que chega a 23,3 vezes maior em estados como Alagoas. Enquanto os homicídios de não negros caíram 38,9% em onze anos, a redução entre negros foi de apenas 21,7%.

Entre a população LGBTQIAPN+, as notificações de violência contra homossexuais e bissexuais cresceram 212,7% em 11 anos, totalizando 59.790 casos na última década. Em 2024, 5.575 pessoas trans e travestis foram vítimas de violência notificada. 

O Atlas aponta que o Estado ainda falha em registrar sistematicamente a motivação desses crimes, gerando uma “invisibilidade institucional” que dificulta políticas públicas eficazes.

A violência contra idosos cresceu 226,3% entre 2014 e 2024, chegando a 30.097 casos anuais registrados no sistema de saúde. Homens negros idosos têm taxa de vitimização letal 1,7 vez maior que homens não negros da mesma faixa etária.

Em relação aos povos indígenas, a taxa de homicídios em 2024 foi de 24,6 por 100 mil habitantes, 22% acima da média nacional. No Amazonas, os assassinatos de indígenas dobraram em um ano, com aumento de 123,4% na taxa de letalidade,  na Bahia, o crescimento foi de 84,6% no mesmo período.

Trânsito e precarização do trabalho

O Atlas trata o trânsito como uma das principais frentes de violência letal no país. Em 2024, foram registradas 37.150 mortes no trânsito, com as motocicletas respondendo por 41,6% dos óbitos. 

Entre 2019 e 2024, as mortes em sinistros com motos cresceram 38%, passando de 11.182 para 15.459 óbitos, reflexo direto da expansão da economia de aplicativos, que consolidou a motocicleta como instrumento de trabalho para parcelas vulneráveis da população, especialmente no Norte e Nordeste. No Piauí, as motos estiveram envolvidas em 72,7% das mortes no trânsito em 2024. 

Para os pesquisadores, a pressão por produtividade, jornadas extensas e ausência de proteção social transformaram os trabalhadores de aplicativos em um dos grupos mais expostos ao risco letal no cotidiano urbano.

Com informações da Agência Gov

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil-Fotos Públicas